Brasília, Brinquedo de Ler

“Todo mundo sonha?” Brasília Brinquedo de Ler é um espetáculo teatral imaginopoético que nos convida a anoitecer tudo que pensamos saber sobre Brasília para nos despertar a imaginar um pouco mais. Inspirado no projeto urbanístico e arquitetônico da cidade, no amor entre Lúcio Costa e Julieta Guimarães, na história da construção da nova capital e em seu cenário atual, o espetáculo traz o rito irreverente do brincar para dialogar com as infâncias de todas as idades sobre o território em que diariamente dormem e acordam os nossos sonhos.

Brasília Brinquedo de Ler foi um dos primeiros projetos contemplados no edital de Ocupação do FAC - Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. Com estreia em abril de 2018, o projeto ocupou durante três meses o gramado e o salão do Panteão da Pátria, no Centro Cultural 3 Poderes. Com um formato híbrido, dividido em uma primeira parte: contemplativa - a apresentação do espetáculo -, e em uma segunda parte: interativa - a livre fruição do público com os objetos de cena -, além da poesia textual e da linguagem teatral,  o projeto tinha como base o design gráfico, contando com um cenário composto de dobraduras e ilustrações criadas por Gabriel Guirá que remetiam à estética da cidade. Em cena, Gabriel atuava com Ana Clara Vale sob direção de Ana Flávia Garcia.

Ainda em 2018, a escritora, jornalista e criadora do FIL - Festival Itinerante de Leitura, Alessandra Roscoe, convidou Gabriel Guirá para realizar uma apresentação solo com o texto de BRASÍLIA BRINQUEDO DE LER na quinta edição do festival, que aconteceu na Escola Parque da 508 Sul e contou com a presença de autores e ilustradores de todo o Brasil e artistas de Portugal.

Já em 2019, mais uma vez, BRASÍLIA BRINQUEDO DE LER surge em um novo formato: Ana Flávia Garcia divide agora a cena e a direção com Gabriel Guirá, e o espetáculo recebe um novo olhar na encenação, na dramaturgia e na estética. O texto ganha novas camadas, e o jogo cênico desvia suas referências da arquitetura pronta da cidade para habitar, antes disso, o canteiro de obras da sua construção. Em uma curta temporada com sucesso de público no Espaço Cultural Renato Russo, o espetáculo troca os brinquedos de papel por tijolos, pedras, madeiras e canos, e se aproxima ainda mais da imaginação criadora da criança, que, com sua potência ressignificadora das coisas, transforma todo material em instrumentos do olhar, ou melhor, em brinquedos de ler.

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“O espetáculo inicia com uma afetuosa cena estática, enquanto o público entra Ana Flávia Garcia e Gabriel Guirá estão abraçados ao centro regados por uma linda luz de Ana Quintas, uma visão de parceria, de aconchego e delicadeza. Quando estas figuras começam a se mover na cena, um ambiente onírico se instala a partir da utilização valorosa de objetos de construção diversos, música e luzes. Objetos banais em qualquer canteiro de obras se tornam prédios, casas e monumentos nas mãos dos intérpretes. Muitas imagens se formam deixando os pequeninos na plateia curiosos sobre aquele inusitado que se apresenta. Ao meu lado, na plateia, uma menina de uns 6 anos de idade repetia: "pai, não to entendendo nada." E, magicamente, a atriz inicia falas sobre "o entendimento" ou não das coisas e que isso não era algo tão importante pra uma história. A menina ficou bem atenta, pois parecia que a resposta vinha justamente para suas questões. Quando as palavras começam a ser proferidas no palco é que percebemos mais a riqueza e a singularidade deste trabalho. Uma peça para a infância que não encara a criança como alguém incapaz, não existem aqui vozes anasaladas ou trejeitos fakes infantilóides, os dois falam sobre sonhos, sobre cidades-monumento e utopias, temas elaborados e profundidades corajosas são postos nas palavras. As profundezas são muitas e o texto alcança lugares interessantes, principalmente para este público que constantemente se depara com subprodutos ralos e caçaníqueis. O jogo de palavras, somente pelo prazer de brincar com as palavras, vira um procedimento de elaboração de outras possibilidades de linguagem para pessoas que estão no início de processos de formação linguística, novos mundos para novas gerações. Palavras colocadas como dúvidas e reflexão que nos trazem à cena a importância das coisas desimportantes, das palavras novas e de diálogos interrompidos por novas brincadeiras. Vida longa a este trabalho delicado e necessário que emociona pessoas de todas as idades. E que inspire mais e mais criadoras a transformar a cena teatral para infância. Por um teatro elaborado e respeitoso com esses universos tão ricos do início da vida.”

 

FERNANDO DE CARVALHO | diretor, dramaturgo e ator de Brasília | 2019

FICHA TÉCNICA

 

 

INTÉRPRETE-CRIADORES

ANA FLÁVIA GARCIA

GABRIEL GUIRÁ

TEXTO

GABRIEL GUIRÁ

ILUMINAÇÃO

ANA QUINTAS​

DESIGN GRÁFICO

GABRIEL GUIRÁ

 

FOTOGRAFIA

NATHALIA BRITTO (2018)

CAROL RESENDE (2019)