A ideia de Tempo dell'Anima foi embrionada ainda em 2018, a partir do encontro das inquietações de um coletivo de artistas do DF em torno da tríade arte, humor e infância. Impulsionados pelo trabalho do multiartista italiano Antonio Catalano, que esteve no DF durante o V Festival Primeiro Olhar, os atores Camila de Sant'Anna, Gabriel Guirá, Marilia Cunha e Pedro Caroca dão início ao projeto na Casa Degli Alfieri - um trintenário centro de pesquisa e criação artística no coração de Monferrato (Asti, Itália). Em novembro de 2019 acontecerá ali uma residência com Antonio Catalano, registrada pelo olhar da fotógrafa e cinegrafista Nathalia Britto, que culminará na criação de um espetáculo e um mini documentário sobre o processo.

O projeto Tempo dell’anima nasce do desejo de manutenção, expansão e travessia de algumas pontes construídas ao longo dos últimos anos no cenário cultural do Distrito Federal. Além dos elos entre as linguagens da arte e das díades humor e infância, artista e público, adulto e criança, o projeto parte de outra importante conexão que não poderia deixar de estar na base da sua proposta. Entendendo o DF como uma fonte cada vez maior e mais sólida de produção artística voltada à infância, sendo o berço de muitos dos principais grupos, pesquisas e espetáculos teatrais pensados especificamente para esse público, foi aqui onde nasceu o primeiro festival de teatro para bebês do Brasil, o Festival Primeiro Olhar, que, com caráter internacional, deu origem a uma extensa ponte entre o Brasil e a Europa, criando importantes encontros entre artistas brasileiros e europeus ao longo dos seus cinco anos de existência. Não à toa, foi durante a quinta edição do festival, em 2018, que os artistas participantes da proposta desta residência se encontraram com o italiano Antonio Catalano, que há mais de 30 anos, num trabalho caracterizado pela multilinguagem, tem criado obras que transitam fluidamente entre o humor e a poesia, o adulto e a criança, o banal e o maravilhoso, o artista e o público, bem como pelas mais diferentes formas de expressão artística; relações que originam a inspiração deste projeto que, não por menos, se propõe a acontecer no alto da ponte Brasil-Itália.

"Maravilha, é isso que me interessa: reabilitar o olhar para admirar. Se a infância não é realmente uma idade da vida, mas é uma maneira de olhar o mundo, a maravilha é esse caminho, esse olhar. A maravilha: o simples assombro por algo que passa sob nossos olhos todos os dias, do qual não podemos mais ver a alma". Com esse pensamento de Antonio Catalano, podemos sintetizar o quanto o seu olhar sobre a infância vai de encontro a um percurso, cada vez mais consolidado e expandido, tanto na arte quanto na educação, no qual a criança não é mais vista como apenas um protótipo do adulto que se tornará, logo, um ser incompleto, inferior, desimportante, mas como alguém inteiro em si, dotado da mais orgânica e simples potência na complexa sensibilidade necessária para criar, habitar e transformar o mundo. Uma abordagem que podemos perceber, por exemplo, na pedagogia da escuta, desenvolvida por outro italiano, Loris Malaguzzi, em Reggio Emilia, Itália, na qual o professor também aprende enquanto ensina, dando à criança valor, autonomia e protagonismo necessários para proporcionar a mais profunda experiência sobre a vida. Perspectiva semelhante podemos encontrar nos trabalhos de diversos pesquisadores brasileiros, como a etnomusicóloga bahiana Lygia Hortelio (“A cultura da criança é a cultura da alma. Os meninos têm a alma na frente. Depois é que ela vai pra dentro. Vai botando pano, papel, livro em cima”), o artista plástico maranhense Gandhy Piorski (“Os conteúdos da infância estão no porão do olhar cultural. A imaginação é a verdade da criança. Para alcançarmos a criança, devemos compreender que a imaginação é um mundo”), e a arte-educadora carioca Ana Mae Barbosa (“Ensino como a grande missão não se ensina nada. Você provoca a experiência. Arte não se ensina, contamina-se pela arte”), entre outros. Todos esses panoramas estruturam a base na qual se construiu o cenário da arte para a infância no Distrito Federal: os pensamentos desses pesquisadores, sejam brasileiros ou italianos, estão intrínsecos ao trabalho dos artistas da cidade que pensam e criam com cuidado, inovação e respeito a cultura para a infância. Entre eles, estão os integrantes dessa residência, que encontraram em Antonio Catalano e na Casa Degli Alfieri, mais um caminho, único, e por isso enriquecedor, porém correlativo, e por isso ainda mais agregador, para dar vazão às suas próprias trajetórias, individuais e coletivas, fortalecendo e dilatando todo esse panorama do DF, fundamental para restaurar o olhar da sociedade brasileira e mundial sobre as crianças.

O trabalho de Antonio Catalano, como a própria essência da infância, possui um caráter cosmogônico. Pode misturar- se teatro, circo, artesanato, dança, música, poesia, gastronomia, natureza, brinquedos, e muitas outras matérias primas da vida, em nome de uma experimentação que, de tão espontânea, desperta o mais original potencial criador em nós, aquele que todos carregamos um dia, crianças, quando éramos tudo e fazíamos tudo dentro de uma brincadeira. Esse  é o tempo da alma, cuja imprevisibilidade, o mistério e a liberdade impulsionam toda experiência espectadora e criadora de quem se encontra com Antonio Catalano, assim possibilitando uma sensação fenomenológica tão comum ao cotidiano infantil. Foi ao refletir sobre essa efemeridade dos instantes de vivência que se despertou a importância de produtos mais duradouros culminados da residência. Assim surgem a montagem de um espetáculo e a criação de um mini documentário, a fim de  usarmos  como base os  instrumentos  estéticos  do teatro e do  audiovisual para  melhor fazermos durar, compartilhar e multiplicar a experiência a ser vivida na Casa Degli Alfieri, e darmos continuidade à construção e travessia de uma ponte que ainda irá proporcionar muitos e diferentes encontros entre indivíduos, coletivos, linguagens, culturas, espaços e tempos.

FICHA TÉCNICA

 

 

CRIAÇÃO E INTERPRETAÇÃO

CAMILA DE SANT'ANNA

GABRIEL GUIRÁ,

MARILIA CUNHA

PEDRO CAROCA

DIREÇÃO

ANTONIO CATALANO

FOTOGRAFIA E VÍDEO

NATHALIA BRITTO​

PROJETO GRÁFICO

GABRIEL GUIRÁ

GESTÃO

PEDRO CAROCA

TRADUÇÃO

MARILIA CUNHA